“Canetas emagrecedoras”: conheça os riscos associados ao uso sem indicação
- Redator

- 11 de mar.
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Os medicamentos para emagrecimento nunca estiveram tão em evidência. Na era das “canetas emagrecedoras”, medicações à base de tirzepatida e semaglutida, por exemplo, viraram tema de assuntos do dia a dia, e seu uso tem sido cada vez mais comum — seja para tratar quadros de obesidade, seja por quem busca perder poucos quilos.

Esses fármacos atuam imitando os hormônios naturalmente produzidos pelo intestino após a alimentação, em especial o glucagon tipo 1 (GLP-1) e o polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP). Essas substâncias enviam sinais ao cérebro, ao estômago e ao pâncreas, informando que o alimento chegou ao corpo.
Na prática, isso se traduz em três efeitos principais: a redução da sensação de apetite no sistema nervoso central, o aumento da saciedade por meio do retardo do esvaziamento gástrico e a melhora do controle do açúcar no sangue.
Esse conjunto de ações explica por que muitas pessoas relatam comer menos, sentir menos fome ao longo do dia e perder peso de forma consistente. Ainda assim, os resultados não são iguais para todos. A resposta ao tratamento é individual e depende de fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e do estilo de vida.
Nem todo mundo deve usar
Esses medicamentos não são indicados para qualquer pessoa que deseje emagrecer alguns quilos — seu uso deve ser criterioso e sempre baseado em avaliação médica.
De modo geral, o tratamento é indicado para pessoas com obesidade, caracterizada por índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30. Também pode ser considerado para indivíduos com IMC a partir de 25 que apresentem comorbidades como diabetes tipo 2, hipertensão, colesterol elevado, gordura no fígado, apneia do sono, resistência à insulina ou problemas articulares que dificultam a movimentação.
Há ainda situações específicas, como insuficiência cardíaca associada à obesidade, em que pacientes podem se beneficiar da medicação. Cabe ao médico a recomendação, com base no histórico de saúde do paciente, seus exames laboratoriais, além de expectativas e riscos envolvidos com a medicação.
Riscos e efeitos colaterais
Por mais que o emagrecimento seja o objetivo mais visível, os efeitos desses medicamentos não se restringem à redução do peso. Também pode haver melhora no controle glicêmico e no colesterol, reduzindo também a probabilidade de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e mortalidade cardiovascular.
Contudo, como qualquer outro medicamento, não são isentos de riscos. Os efeitos colaterais mais comuns incluem náusea, vômito, diarreia e constipação intestinal. Em geral, esses sintomas tendem a diminuir ao longo do tratamento, especialmente quando a dose é ajustada de forma gradual.
Outro ponto de atenção é a perda de massa magra. Quando o emagrecimento ocorre de forma muito rápida ou sem uma alimentação balanceada e prática de atividade física, a perda muscular pode ser maior. Também há risco de formação de cálculos na vesícula biliar.
E a pancreatite?
A inflamação do pâncreas, condição conhecida como pancreatite, é um efeito colateral raro previsto na bula dos medicamentos agonistas de GLP-1. Há evidências, inclusive, de que a perda de peso e a melhora do índice glicêmico proporcionados pelas medicações contribuam com a neuroproteção do pâncreas em algumas populações.
Contudo, com a popularização dessas medicações, aumentaram as notificações de casos, o que tem alertado autoridades de saúde no Brasil e em outros países.
O risco é maior entre pacientes com diabetes e obesidade. Em um estudo de coorte, a incidência de pancreatite aguda em indivíduos com obesidade foi observada em 0,3% .
Um trabalho feito a partir da base de dados TriNetX, abrangendo 127 milhões de pacientes, focou em 638.501 indivíduos com histórico de pancreatite. No comparativo de pacientes com obesidade que não usaram GLP-1, a taxa de recorrência de pancreatite foi de 51,6% , em comparação com 14,5% para aqueles que estavam em tratamento com a medicação. Em outra análise, as taxas de pancreatite foram de 2,5% para usuários de GLP-1, em comparação com 2,6% para não usuários, numa população de 340 mil pessoas.
A condição é preocupante porque pode evoluir rapidamente e de forma grave, levando à morte. Daí por que esses medicamentos só devem ser consumidos com indicação e acompanhamento médico rigoroso, monitorando todas as possíveis reações adversas.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta no último dia 9 de fevereiro a respeito de casos de pancreatite em investigação no país. “O risco pode ser ainda maior quando estes medicamentos são utilizados fora das indicações autorizadas (ex.: emagrecimento rápido ou fins estéticos, sem indicação clínica)”, frisa o documento.
Cuidados durante o tratamento
Uma das dúvidas mais recorrentes é o que ocorre após a interrupção do medicamento e se o tratamento deve ser temporário ou contínuo. Na maioria dos casos, o peso tende a voltar quando o remédio é suspenso, especialmente se não houver mudanças consistentes no estilo de vida. Isso não acontece com todas as pessoas, mas é frequente quando a medicação é utilizada de forma isolada, sem reeducação alimentar, prática regular de atividade física e cuidado com a saúde mental.
Vale lembrar que a obesidade é uma doença crônica. Assim como a hipertensão, por exemplo, muitos precisam de tratamento contínuo. Para esses pacientes, o uso prolongado do medicamento pode ser necessário para evitar o ganho de peso novamente e controlar os efeitos metabólicos da doença.
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Fonte: Danielle Macellaro, endocrinologista no Einstein Hospital Israelita (CRM 90582-SP/RQE 62441).




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